terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Me and myself.

Lá estava aquele homem. Sentado em frente o ribeirão que corria como se desesperado, em encontrar uma saída dali, de perto dele. Talvez o sofrimento que inalava assustasse tanto as águas, ou talvez fosse apenas, a lei daquele trajeto. Porém, de uma coisa ele sabia, aquilo ainda assim o deixava aflito.

Talvez essa angústia trazida pelas águas beirasse a covardia, porque afinal, ele era só um homem. Ele tinha que viver. Ele tinha que lembrar, ter memórias, recordações que lhe servissem de refúgio. O barulho da água se tornava ensurdecedor, mas era infinitamente melhor do que todas as vozes que lhe rodeavam. O sol, seco, se pondo como num pranto, baixinho e decisivo, agora deixava aquele homem triste completamente sozinho. Porque nenhuma estrela no céu seria capaz de lhe fazer companhia, de lhe dar a felicidade que ele jogou fora, assim. Assim. Sem razão.

Apesar de talvez perdido nas súplicas em seus pensamentos por lembranças, a água ainda estava ali, e, cantava. Sozinha escorria lhe era sua única amiga presente e incessante. Temida, parecia pairar dentre as arvores que cercavam o casebre do ermitão, que havia escolhido tal lugar para seu lar, pelo fluir da ribeira logo á frente.

Ele se sentia cansado, e realmente merecia descanso. Seus olhos doíam, sua cabeça, seus braços. Era difícil encontrar a razão da dor. Concluiu que tudo era psicológico: após um bom sono, alguns momentos para pensar e reavaliar toda sua vida iriam cessar-lhe a dor. Apesar de um sentimento estranho o invadir. Ele gostava de sentir isso. Dor. E não queria que, de maneira alguma, fosse embora. Ele sabia que a dor era sua única lembrança, segura, verdadeira, de tudo o que viveu. Deixá-la partir seria como perder, pior, esquecer o que um dia foi a razão da sua existência.

Levanta, caminha, para, abre a porta, entra, olha. Havia parado em frente a porta de seu quarto de alquimia. Tal qual todo poder que havia dentro de si, estava contido em poções, varinhas, vassouras, livros e símbolos. Talvez nada daquilo mais lhe faria sentido. Mais não ligava, afinal, ali dentro não iria estar só. Apesar do som da batida das águas nas pedras o atormentassem mesmo já dentro do chalé.

- O que você faz aqui?
- Esperando você. Esperando desde sempre.
- Sempre é nunca. Nunca. Você deveria ter desistido.
- Você deveria não ter desistido. Quer falar de coragem agora?
- Não. Mas me sinto bem aqui.
- Lembranças demais.
- Eu quero ser alguém comum. Normal. Como você.
- Sabe que não vai conseguir.
- Eu não pedi por isso.
- Você acha que eu pedi você? Eu poderia querer alguém que também me queira.
- Isso não é uma escolha.
- Você fez disso uma escolha.
- Um juramento? Agora é uma escolha? Não gosto quando você fala assim.
- Não gosto quanto você não fala. Nunca. Mas não reclamo disso. Eu aceito. E entendo.
- Eu não consigo ser assim.
- Você não quer ser assim. É diferente.

Ele e ele mesmo. Parecia uma discussão favorável. Estava indo bem, e, logo seus argumentos lhe calariam a boca. Ou não. O velho adentra no quarto e lá estava o esperando ele mesmo. Já mais novo. Já não daquele jeito. Diferente. Ouve o cachorro. Não liga.

Liga, mas não se importa. Nada importa. O reencontro é difícil, chega a arder. É duro se ver depois de tantos erros e tantas desilusões. Mas é importante, faz parte do tal crescimento. A pergunta agora, ele tinha certeza, nunca iria mudar. Suas respostas é que estavam cada dia mais amadurecidas. Tudo tinha um olhar diferente, cada momento vivido era bem aproveitado, porque ele sabia, as pessoas mudam. E envelhecem. E se deparam com um mar perigoso, gritando que tudo pode se perder em um piscar de olhos. As vozes, os olhares. A dor que ele insistia em sentir. Tudo tão aconchegante, tão terno. Ele poderia se perder, agora. Seria uma coisa boa. Seria inútil.

Ele some. Sobra apenas ele de novo. Caminha até a janela. Avista a lápide no quintal. Sozinha inóspita e fria. A única certeza era que ele já não estava mais em outro lugar, se não lá. À sete palmos.


[By: Me and JéhRoussenq ]

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